Um aspecto pouco discutido no debate entre papel e plástico é o investimento para influenciar as regras da competição. Decisões sobre reciclabilidade, restrições, incentivos e responsabilidade estendida do produtor podem acelerar uma cadeia de valor e, ao mesmo tempo, impor custos a outra. As duas investem em advocacy, o trabalho de defesa de interesses junto a quem decide as regras.
Quanto cada lado declarou nos Estados Unidos
Veja os gastos com lobby declarados nos Estados Unidos no segundo trimestre de 2026:
- American Forest & Paper Association: US$ 710 mil;
- PLASTICS (Plastics Industry Association): US$ 150 mil;
- American Chemistry Council, que representa a indústria química, incluindo a de plásticos: US$ 2,57 milhões.
A fonte são os registros federais americanos da Lobbying Disclosure Act (lei de transparência do lobby) referentes ao segundo trimestre de 2026, formulário LD-2, linha 13, que traz os gastos declarados com lobby.
Esses números cobrem organizações específicas e vários temas de políticas públicas. Não são totais da indústria nem gastos exclusivos com a disputa entre papel e plástico. Ainda assim, mostram que a influência institucional faz parte da estratégia industrial.
O consórcio PaperFlex
É nesse cenário que o PaperFlex merece atenção. Convocado pela Ellen MacArthur Foundation e operado pela (RE)SET, o consórcio reúne seis grandes empresas de bens de consumo para desenvolver embalagens flexíveis à base de papel.
Várias conexões são públicas. A fundação documenta uma parceria estratégica com a DS Smith e lista parcerias corporativas entre suas fontes de financiamento. A (RE)SET também conduz o Pulp in Action, que busca substituir plásticos por fibras de celulose em embalagens de cosméticos.
Essas relações não provam que a DS Smith financia o PaperFlex, que houve tratamento preferencial ou que o consórcio faz lobby regulatório. Mas justificam examinar como interesses comerciais, pesquisa e influência institucional se cruzam.
As perguntas que precisam de resposta
Quem financia cada iniciativa? Quem escolhe as alternativas que serão comparadas? Como os possíveis conflitos de interesse são administrados? Resultados desfavoráveis ao papel também serão publicados?
A própria fundação reconhece que as soluções pretendidas ainda não atingem o desempenho, a escala e o custo necessários, e apresenta o papel como um componente de uma estratégia mais ampla. Essa ressalva merece tanta visibilidade quanto o anúncio.
O mesmo rigor para os dois lados
O mesmo escrutínio deve valer para o papel e para o plástico. Interesses comerciais não anulam benefícios ambientais. Da mesma forma, uma narrativa ambiental não dispensa o exame de quem a financia, de suas premissas e de quem se beneficia dela.
A melhor embalagem precisa demonstrar seus méritos no contexto real de uso e de descarte. A capacidade de influenciar o debate não substitui essa evidência.
Aislan Baer é CEO da ProjetoPack & Associados, consultoria de M&A (fusões e aquisições), turnaround e inteligência estratégica para a indústria de embalagens, rótulos e impressão na América Latina, e editor da ProjetoPack em Revista. Este artigo foi publicado originalmente em inglês no LinkedIn em 24 de setembro de 2026.