Na disputa papel contra plástico, um aspecto pouco discutido é o investimento para influenciar as regras da competição. Decisões sobre reciclabilidade, restrições, incentivos e responsabilidade estendida do produtor podem acelerar uma cadeia de valor e, ao mesmo tempo, impor custos a outra. No Brasil, por exemplo, o Decreto 12.688/2025 fixou metas de conteúdo reciclado em embalagens plásticas. Por isso, as duas cadeias investem em advocacy, ou seja, no trabalho de defesa de interesses junto a quem decide as regras.
Papel contra plástico: quanto cada lado declarou nos Estados Unidos
Veja os gastos com lobby declarados nos Estados Unidos no segundo trimestre de 2026:
- American Forest & Paper Association: US$ 710 mil;
- PLASTICS (Plastics Industry Association): US$ 150 mil;
- American Chemistry Council, que representa a indústria química, incluindo a de plásticos: US$ 2,57 milhões.
A fonte são os registros federais americanos da Lobbying Disclosure Act (lei de transparência do lobby) referentes ao segundo trimestre de 2026. Os valores aparecem no formulário LD-2, linha 13, que traz os gastos declarados com lobby.
No entanto, esses números cobrem organizações específicas e vários temas de políticas públicas. Portanto, não são totais da indústria nem gastos exclusivos com a disputa papel contra plástico. Ainda assim, mostram que a influência institucional faz parte da estratégia industrial.
O consórcio PaperFlex
É nesse cenário, portanto, que o PaperFlex merece atenção. A Ellen MacArthur Foundation convocou o consórcio, e a (RE)SET o opera. Ele reúne seis grandes empresas de bens de consumo para desenvolver embalagens flexíveis à base de papel.
Várias conexões são públicas. Por exemplo, a fundação documenta uma parceria estratégica com a DS Smith. Além disso, lista parcerias corporativas entre suas fontes de financiamento. A (RE)SET também conduz o Pulp in Action, que busca substituir plásticos por fibras de celulose em embalagens de cosméticos.
Essas relações não provam que a DS Smith financia o PaperFlex, que houve tratamento preferencial ou que o consórcio faz lobby regulatório. Mas justificam examinar como interesses comerciais, pesquisa e influência institucional se cruzam no debate papel contra plástico.
As perguntas que precisam de resposta
Em primeiro lugar, quem financia cada iniciativa? Em seguida, quem escolhe as alternativas a comparar? Além disso, como cada organização administra os possíveis conflitos de interesse? Por fim, os responsáveis também vão publicar resultados desfavoráveis ao papel?
Aliás, a própria fundação reconhece que as soluções pretendidas ainda não atingem o desempenho, a escala e o custo necessários. Ao mesmo tempo, apresenta o papel como um componente de uma estratégia mais ampla. Essa ressalva, portanto, merece tanta visibilidade quanto o anúncio.
O mesmo rigor para os dois lados
No debate papel contra plástico, o mesmo escrutínio deve valer para os dois lados. Afinal, interesses comerciais não anulam benefícios ambientais. Da mesma forma, uma narrativa ambiental não dispensa o exame de quem a financia, de suas premissas e de quem se beneficia dela.
Em resumo, a melhor embalagem precisa demonstrar seus méritos no contexto real de uso e de descarte. Ou seja, a capacidade de influenciar o debate não substitui essa evidência. Aliás, defendo o mesmo padrão de evidência para avaliar o retorno das feiras do setor gráfico.
Aislan Baer é CEO da ProjetoPack & Associados, consultoria de M&A (fusões e aquisições), turnaround e inteligência estratégica para a indústria de embalagens, rótulos e impressão na América Latina, e editor da ProjetoPack em Revista. Este artigo foi publicado originalmente em inglês no LinkedIn em 24 de setembro de 2026.
