O governo russo assumiu o controle da Aptar Vladimir, subsidiária local da norte-americana Aptar Group. O grupo tem ações listadas na Bolsa de Nova York (NYSE) sob o código ATR. Em operação desde 2003, a fábrica de tampas e dosadores plásticos faturou 1,75 bilhão de rublos no último ano. Assim, com o confisco da Aptar, a unidade se tornou o alvo mais recente da onda de confiscos de Moscou.
Confisco da Aptar: para onde vai o ativo
O que chama a atenção é o destino de um ativo milionário cuja estrutura acionária era 100% ocidental. A gestão passou para a russa H&N, a mesma que absorveu a Danone no país. Dessa forma, a operação fica sob o comando de Yakub Zakriev, sobrinho do influente líder checheno Ramzan Kadyrov. Ou seja, é um claro loteamento dos espólios ocidentais entre os aliados mais leais ao Kremlin.
A armadilha financeira
Por isso, o confisco da Aptar acende um alerta vermelho para o mercado de embalagens e para os convertedores. Afinal, o que aconteceu com a Aptar é o mesmo que já atingiu grupos como CANPACK e Silgan Holdings: a chamada armadilha financeira.
A Amcor e a Tetra Pak, por exemplo, desinvestiram rapidamente, logo no início do conflito. Por outro lado, as empresas que não seguiram esse caminho ficaram impedidas de repatriar lucros. Além disso, agora perdem o controle de suas operações da noite para o dia. Enquanto isso, grupos como Greif e Crown Holdings, que mantêm instalações ativas na região, ainda estão no radar de risco máximo.
Três lições para o setor
- Risco soberano e valuation. Canetadas políticas podem pulverizar o valor e o EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de uma operação altamente lucrativa. Por isso, avaliações e operações de M&A (fusões e aquisições) em jurisdições autocráticas exigem prêmios de risco altíssimos. Além disso, exigem uma due diligence (auditoria prévia à transação) geopolítica impecável.
- Dinâmica de propriedade. A matriz americana perdeu instantaneamente qualquer poder de gestão, o acesso às instalações e o controle da cadeia de suprimentos.
- Transferência de tecnologia. A apropriação forçada de capacidade produtiva altera o xadrez do fornecimento global. Ao mesmo tempo, fortalece conglomerados estatais alinhados a líderes políticos.
A geopolítica no conselho
O planejamento estratégico das indústrias e a estruturação de fusões e aquisições precisam, portanto, ir além da análise de margem e de sinergias. Afinal, a geopolítica agora senta na cadeira do conselho e dita as regras do jogo. Aliás, não é a única força nessa mesa: o lobby no debate entre papel e plástico também disputa essas regras.
Depois do confisco da Aptar, fica a pergunta para quem decide investimentos no setor. Como esses movimentos estão entrando na avaliação das cadeias de suprimentos globais e nas próximas teses de investimento?
Aislan Baer é CEO da ProjetoPack & Associados, consultoria de M&A, turnaround e inteligência estratégica para a indústria de embalagens, rótulos e impressão na América Latina, e editor da ProjetoPack em Revista. Este artigo foi publicado originalmente no LinkedIn em 23 de setembro de 2026.
